Concurso público “difícil”
e Akrasia
Atahualpa
FernandezÓ
Marly
FernandezÓ
“No te desanimes por nada ni en ocasión alguna;
imita, por el contrario, a los maestros de pugilato, que cuando ven a un novato
rodar por el suelo le obligan a levantarse y volver a la lucha. Pues del mismo
modo debes hacer con tu espíritu; nada hay más dócil que el espíritu humano: no
hay más que querer, lo demás se hace sólo. Pero si te acobardas, estás perdido,
pues no volverás a levantarte en tu vida. Cuidado, pues, que tu pérdida o tu
salvación están en tu mano”.
EPICTETO
Imagina por um momento
que um dia te despertas e te propões escolher entre duas alternativas. A primeira - considerando
teu nível de formação e tempo de preparação - dedicar-te a fazer concursos
públicos “mais fáceis” que, com maior
probabilidade, te facilitará um emprego mais imediato, embora este não
corresponda exatamente aquilo que desejas e com o qual sempre sonhastes. A
segunda - também considerando teu nível de formação e tempo de preparação - dedicar-te a fazer concursos “mais difíceis”
cujas possibilidades de aprovação imediata são bem mais remotas, mas que logo,
pouco a pouco, com uma crença profunda no trabalho duro, na tua determinação e
capacidade de esforço, reunirás os recursos e os conhecimentos necessários para
tua aprovação e a consequente (e tão almejada) conquista de um sonho que
alimentas durante muito tempo[1].
Este tipo de eleição descarnada
acaso pareça um tanto absurda, mas inconscientemente é a eleição que muitos candidatos
fazem e que, em última instância, não somente implica um salto intelectual, senão
também um salto moral, psicológico e espiritual[2]. É evidente que cada
indivíduo decide qual é sua meta vital, mas, como seria não ter esperança, não crer que as ações do presente podem
produzir resultados positivos no futuro, desistir de um objetivo desejado, esperar
o fracasso e antecipar a derrota?
O certo é que esse tipo de atitude
parece gerar uma espécie de impotência aprendida que nos impede de controlar
nosso presente e a renunciar ao desejo de possibilidades futuras. E uma vez que
não estamos limitados aos desejos que nos impulsam a atuar, senão que, ademais,
possuímos a capacidade reflexiva para configurar desejos com relação a nossos
próprios desejos, quer dizer, com relação ao que queremos querer e ao que queremos
não querer, o resultado final da luta entre as duas alternativas antes
mencionadas pode supor para um indivíduo uma vitória ou uma derrota a nível
pessoal, profissional e emocional. Vejamos por parte.
Uma das melhores
contribuições das neurociências consiste em haver descoberto que a plasticidade é uma das características
essenciais do cérebro. Os seres humanos podem cultivar seu cérebro, gozam da
capacidade de adaptar-se a novas circunstâncias, de adquirir informação e de
cambiar (para o bem ou para o mal) até a etapa final da vida. E mais: a
plasticidade do cérebro depende, ao menos em parte, de quanto se usa e em que
sentido, com o qual trabalhar para aperfeiçoá-lo (e aperfeiçoar-nos) não
somente é possível, senão também recomendável. E uma vez que toda e qualquer
idéia que formulamos sobre nós mesmos não são mais que crenças, um estado
psicologicamente construído que não passa de meras invenções da mente humana,
esta (a mente) também pode cambiar-se. Dito de outro modo, podemos eleger
interpretar o mundo da forma que nos seja mais útil, positiva e produtiva;
somente nós podemos fazer com que nosso presente tenha sentido e que nossos
verdadeiros objetivos tenham absoluta prioridade. Nossa tarefa, portanto,
consiste unicamente em encontrar e levar a cabo o processo que produza o melhor
indivíduo possível.
Por essa razão, a
mais insidiosa de todas as concessões é a que o indivíduo pacta consigo mesmo
quando suas ambições e esperanças começam a decair, quando começa a aceitar
passivamente suas próprias limitações, etapa em que na maioria das vezes denota
uma retirada e esgotamento frente ao medo de um futuro imaginado e não uma
justa apreciação de suas próprias forças e potencialidades. Este tipo de atitude
subverte nossa confiança, interfere em nossos atos, mutila nossa determinação.
Também distorce nossa percepção, criando obstáculos e monstros donde não há
nada.
O problema é que se
há algo que valha a pena temer neste mundo, é viver de tal modo que, ao final
de nossa jornada, tenhamos motivos para lamentar-nos de não haver intentado
alcançar o que realmente desejamos. Só é necessário coragem, ou sentido comum,
para ver que as melhores conquistas costumam ser sempre as mais difíceis; e que
a derrota costuma encontrar-se entre estas últimas. Na verdade, tudo aquilo que
requer esforço, determinação e perseverança é, neste sentido, difícil; e,
portanto, é algo que nos faz melhores pessoas.
Assim que uma boa maneira de afrontar
as alternativas descritas anteriormente e de decidir por uma delas, é aceitar a
evidência de que é praticamente inconcebível e frustrante desejar algo de todo
coração, pensar, sentir e saber que existe uma oportunidade de consegui-lo, e
logo não fazer nada a respeito. Quando isso sucede, o sentimento de “Eu devia
ter...” resulta desconcertante e “sem sentido”, não um consolo. Outra forma é
manter-se firme na busca de nossos objetivos e aceitar o fato de que o
verdadeiro êxito não é produto de nenhum ato mágico ou milagroso, senão o resultado
de muito, muito trabalho e esforço, estóica resistência e entusiasmada
determinação.
Estas pequenas atitudes diárias, igual
que qualquer prática virtuosa, se acumulam com o tempo e acabam provocando
grandes diferenças. Pequenas intenções que nos ajudarão a desenvolver
mecanismos que eliminem nossa tendência a sobrevalorar nossas debilidades
presentes e a exagerar os obstáculos e as dificuldades do futuro. O primeiro
passo, portanto, é aprender a acreditar em si mesmo, a conservar a auto-estima,
a determinação e a esperança. Ter claro que nossos objetivos importam mais que
qualquer outra coisa, sem se preocupar com o difícil que possa parecer as
circunstâncias às quais nos enfrentaremos. Assumir o sempre necessário esforço
e a incansável determinação como uma força positiva e construtiva, e não como
uma enorme e pesada carga. A verdadeira determinação é uma virtude que modela e
enobrece nosso caráter, um valor intrínseco que independe de imaginárias (e
temorosas) previsões do futuro.
De fato, a lição mais
importante que se pode aprender daqueles que já triunfaram não é o quão
inteligentes parecem ser ou o quão “fácil” conseguiram o que queriam, senão o
quão indomáveis e resistentes foram. Há que querer o que se deseja, querer com
tantas ganas que a renúncia não seja uma alternativa possível, querer com
tantas ganas que não se tema, sob nenhuma circunstância, tentar alcançá-lo,
querer com tantas ganas que para consegui-lo esteja disposto a sacrificar todo
o tempo e esforço que seja necessário, querer com tantas ganas que não só esteja
preparado para fracassar senão que também esteja disposto a aprender dos
próprios fracassos. E, acima de tudo, há que crer que se
conseguirá, porque quanto mais uma pessoa crê que pode conseguir algo, maior
será o esforço empregado e mais gratificante o êxito que disfrutará chegado o
momento. Os logros poucos comuns
requerem um nível nada comum de motivação pessoal e uma quantidade ingente de
fé, determinação, confiança e esperança.
Mas não somente isso:
a busca de um sonho sempre tem algo de absurdo desde um ponto de vista lógico,
e não é uma questão de mero sentido comum. Qualquer logro possível se encontra
anos por diante, está longe de ser seguro e com frequência resulta difícil
inclusive de vislumbrar. É impossível dizer durante quanto tempo teremos que
resistir e jamais poderemos conhecer os resultados por adiantado. A distância
prática entre nossas habilidades atuais e o objetivo desejado pode ser tão
enorme que nos leve a ver a meta como algo inalcançável.
E essa é exatamente a
questão. A conquista de um objetivo não está somente um passo mais além do que
parece “improvável”; a conquista
transcende o improvável, e o faz indo um passo mais além e logo outro
passo mais além e logo outro, outro, outro, isto é, muitos pequenos passos até
que a distância entre o que parecia improvável e a conquista finalmente
desapareça. E uma vez que esse caminhar exige um esforço em se reflete o
objetivo buscado, a única forma de alcançá-lo é seguir adiante sem medo ou
receio de fracassar, mas com força, coragem e confiança, isto é, com a
inabalável disposição de insistir muito mais além do que pareceria lógico ou
racional. Se parece possível ou inclusive alcançável, então mais cedo se chegará
ao destino desejado. Este o motivo pelo qual os que conseguem triunfar são
também sonhadores. Têm que ter uma parte de suas cabeças nas nuvens com o fim
de imaginar o inimiginável. Têm que ignorar as dificuldades óbvias e o que com
frequência podem parecer obstáculos formidáveis. Ceder às dificuldades ou aos
abstáculos equivale a uma derrota precipitada e insensata.
Daí que tanto essa
determinação como a esperança dependem de uma virtude crucial: a perseverança,
a verdadeira diferença entre o fracasso e o êxito. A capacidade de seguir
adiante em circunstâncias adversas e com a firme convicção de que se pode conseguir a maior parte do que
desejamos depende unicamente de encontramos o modo correto de fazê-lo. Sempre
haverá uma forma correta e uma forma
equivocada de dirigir nossos esforços para conseguir o que desejamos. Convencer-nos de que não somos
capazes ou que (sempre, ainda, talvez...) não estamos “à altura” é, sem dúvida,
a equivocada; ter grandes expectativas e demonstrar perseverança, obstinação e
resistência diante dos retos da vida é a correta. Um tipo de hábito que se pode
cultivar, uma prática que não aceita um não por resposta, uma prática que
persevera e que sabe que o cérebro se adapta física e emocionalmente a qualquer
exigência intelectual que seu propietário lhe imponha.
O ponto de partida para
não render-se, para não buscar atalhos ou deixar de lado as ambições é a simples
confiança em que temos um potencial enorme e que nos corresponde reunir todos
os recursos de que dispomos para aproveitar esse potencial, não ceder,
persistir e superar-nos. Em lugar de imaginar que não estamos preparados, não
temos talento ou que a "aprovação está distante", o que deveríamos fazer é acreditar a fundo em nosso
potencial extraordinário, uma vez que não sabemos nem podemos saber quais são
nossos próprios limites a menos que, precisamente, os busquemos com a
suficiente tenacidade. Sem essa quantidade infinita de fé em si mesmo, é muito improvável que consigamos logros
significativos.
Ademais, o que
aspiramos a ser é o que modela nosso caráter, e é nosso esforço e determinação,
não somente nosso êxito, o que o enobrece, porque o melhor do que somos está precisamente
no que esperamos chegar a ser. Daí que a busca de nossos objetivos mais
desejados, por muito difícil que pareça, cria sentido quando nos dedicamos a
ela dando o melhor de nós mesmos. E é nesse momento, quando experimentamos o
sentido desta maneira, que estaremos preparados para suportar e superar todas as
dificuldades.
Somente as pessoas que estão tão decididas a alcançar
seus objetivos e que são capazes de afrontar as dificuldades e obstáculos com
essa implicação, contumácia e entusiasmo, logram desenvolver uma verdadeira personalidade
enkrática, quer dizer, de um
indivíduo (enkrático) que conhece
muito bem a si mesmo, que entende o que quer e quer o que faz, que tem
objetivos que considerar como próprios e aos que poder dedicar-se por si mesmos
e não somente por seu valor instrumental[3]. De um
indivíduo que, afrontando de forma determinada as adversidades que perturbam a
realização de suas firmes convicções, desejos e objetivos, não ceda ante
nenhuma outra coisa senão somente ante a força da virtude moral, da integridade
pessoal e da sensata e insubornável firmeza do espírito[4].
E embora esse tipo de personalidade não
garanta que tudo sairá bem, seguramente servirá para aprender a deleitar-se do processo, a não cultivar o esforço como
um apego romântico ao “sofrimento”, a não encarar a determinação como um
“sacrifício” pessoal, a não centrar-se no abismo que separa as habilidades
atuais do ideal distante, e, o mais importante, a não perder o controle sobre
nossos sonhos e a não deixar de lutar para mantê-los vivos. Devemos recordar
que o único fracasso verdadeiro é render-se, é não
resistir, e que, com humildade, com esforço, com esperança e com extraordinária
determinação, a grandeza é algo a que qualquer um pode aspirar.
Mas nada disso é novo. Como já nos
ensinaram nossos pais (e mães), todo
sonho é digno de ser abrigado e que é impossível prever tudo o que podemos
fazer e conseguir quando nos entregamos a ele. A única diferença entre a minha
geração e a atual é que nossos pais falavam desde a intuição, a fé e a
experiência. Agora podemos falar desde a intuição, a fé, a experiência e a
ciência (D. Shenk, 2010).
Ó Membro do Ministério Público da União /MPT; Pós-doutor
Ó Doutora em
Humanidades y Ciencias Sociales/ Universitat de les Illes Balears- UIB/Espanha;
Mestra em Cognición y Evolución Humana/ Universitat de les Illes Balears-
UIB/Espanha; Mestra em Teoría del Derecho/ Universidad de Barcelona- UB/
Espanha; Pós-doutorado (Filogènesi de la moral y Evolució ontogènica)/ Laboratório
de Sistemática Humana- UIB/Espanha; Investigadora da
Universitat de les Illes Balears- UIB / Laboratório de Sistemática Humana/
Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC
(CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas
Complejos/UIB/Espanha.
[1] A diferença aqui utilizada entre concursos públicos “fáceis” e
“difíceis” é meramente ilustrativa, adotada e avaliada sobre a base de
informação (e/ou desinformação) gerada pela chamada psicologia popular (ou de
“sentido comum”). Para uma excelente análise sobre o sentido do que seria um concurso público difícil, sugerimos a leitura do
artigo de Rogerio Neiva, “O Super Homem dos Concursos Públicos”
(http://www.concursospublicos.pro.br/duvida-do-candidato/concurso-publico-procurador-republica-mpf-super-homem).
[2] Evidentemente que não cairemos na hipocresia de negar que, com
demasiada frequência, a limitação de recursos e oportunidades impede, restrige
e/ou condiciona este tipo de eleição; de que determinadas circunstâncias da
vida limitam nossa autonomia, isto é, nossa capacidade de sermos ativos e não
passivos em nossos motivos e eleições: de se, com independência do esforço e
determinação com que nos entregamos a eles, nossos motivos, nossas eleições e
nossos objetivos são realmente o que queremos e que, portanto, não nos são
alheios. ( H. Frankfurt, 2004)
[3] Na versão aristotélica, somente o
enkratés, a pessoa que logra
impor-se a si própria suas metapreferências , a pessoa que, sendo amiga de si
mesma, não se contradiz no silogismo prático e que é capaz de eleger seus
desejos e resolver seus conflitos interiores, possui phrónesis, prudência, sabedoria prática, conhecimento concreto de
si e de sua circunstância. O que parece querer sustentar Aristóteles – e isto
marca a diferença com relação ao pensamento platônico da felicidade do homem virtuoso
em qualquer circunstância – é que ser enkrático
é uma condição necessária para ser livre e feliz, mas não suficiente. O bom
controle sobre si mesmo, o ser sábio e senhor de si mesmo, a “força interior”
(uma possível tradução de enkrateia) ou a liberdade respeito dos
próprios impulsos, em uma palavra: a capacidade de superar os obstáculos
internos (e externos), é imprescindível para ser feliz e livre (no sentido de
que nenhum obstáculo interno frustra sua vontade e que, para os estóicos,
corresponde à ataraxia: uma
disposição de ânimo cujo logro é uma tarefa individual e que permite alcançar o
equilíbrio emocional graças à diminuição das paixões e desejos e a fortaleza
frente à adversidade), mas também o é um ambiente que não levante diques
externos à realização da firme vontade do enkratés
(palavra que designava em grego coloquial a quem tinha poder ou capacidade de
uma firme e virtuosa disposição sobre algo; desse adjetivo deriva o substantivo
enkrateia, verossimilmente um
neologismo socrático).
[4] Já o homem akrático,
incontinente ou perverso, “não é uno, senão múltiple, e no mesmo dia é outra
pessoa e inconstante” (Ética Eudemia, 1240b); "não tem comando sobre si mesmo" e contraria seu melhor juízo
sobre o que fazer em determinada situação. Ignorante de si mesmo, o akratés
- aquele que viola o silogismo prático e ignora os mecanismos causais que,
operando dentro dele, colapsam sua vontade - é, segundo a célebre definição
aristotélica, quem atua contra seu melhor juízo, ou seja, quem, havendo
decidido conscientemente um curso de ação como o melhor ou mais conveniente
para ele, é incapaz de levá-lo a cabo, pois é débil de vontade e incapaz de
impor suas próprias decisões deliberadas a seus impulsos e temores. Isso leva
ao homem vicioso, desesperado da debilidade de sua vontade, a enfrentar a si
mesmo, pois o fato de estar dissociados seus desejos e seus sentimentos, torna
possível “que um homem seja seu próprio inimigo” (Ética Eudemia, 1240b).